Atypography
Quando arte abstrata e tipografia entram em acordo.
Brew #16
Você já parou para pensar como a tipografia está em tudo ao nosso redor? Dos letreiros de lojas aos posts no Instagram, das capas de livros às embalagens de produtos. Cada escolha tipográfica influencia como percebemos e sentimos o que lemos. No entanto, com a saturação de fontes tradicionais e o uso excessivo de estilos convencionais, surgiu a necessidade de inovar.
O Atype Movement surgiu como resposta ao esgotamento criativo das fontes tradicionais e ao uso massivo de designs previsíveis na comunicação visual. Svethe Grudi e Milenović Nikola perceberam que a tipografia estava se tornando cada vez mais utilitária, perdendo seu potencial expressivo e artístico. Inspirados por movimentos como o Construtivismo Russo, o Dadaísmo e a Música Atonal, os criadores do Atype buscaram romper com as limitações convencionais e explorar a interação entre forma e significado.
A filosofia por trás do Atype
O Atype Movement vai além de ser apenas uma nova forma de escrever ou o lançamento de novas fontes para designers utilizarem em seus projetos; tem como proposta trazer uma experiência visual e conceitual. Sua filosofia se baseia na fórmula "não é texto, mas é", onde elementos tradicionais da tipografia são desconstruídos e recompostos de maneira a criar um design que é legível, mas também desafiador.
Falar que essa tipografia é legível pode causar estranhamento, porque você precisa de certo esforço para conseguir entender o que está escrito. Ok, muito esforço. No entanto, essa dificuldade é intencional: o Atype busca equilibrar o desafio da leitura com a interação ativa do observador, transformando a decifração do texto em parte essencial da experiência visual.
Svethe Grudi descreve isso como "instinctual reading blocker" (“bloqueador de leitura instintiva”, em tradução livre), que impede a leitura automática e obriga o observador a desacelerar e interagir com o design. O objetivo desse esforço ativo de interação com o design é de despertar curiosidade e um envolvimento mais profundo com a mensagem.

Para traduzir essa proposta disruptiva em prática, o Atype Movement se apoia em conceitos-chave que desafiam os limites da tipografia tradicional e expandem o potencial expressivo do design:
Sistema de Escrita: Reinterpretação de símbolos tradicionais de escrita em formas visuais abstratas.
Abstração: Simplificação ou distorção dos elementos visuais para criar novas formas.
Aplicabilidade: Capacidade de adaptação em diferentes contextos e ambientes.
Encriptação: Ocultação deliberada do significado, incentivando a interação e a decifração.
Universalidade: Equilíbrio entre inovação e familiaridade, garantindo que a essência do sistema de escrita original seja preservada.
Esses princípios norteiam a criação de designs que, embora visualmente intrigantes, ainda carregam uma mensagem compreensível para aqueles dispostos a explorá-la. O resultado da experimentação dentro dessas perspectivas são tipologias projetadas para provocar experiências visuais que envolvem o espectador em um jogo de percepção e interpretação.
Mas será que o Atype é realmente tão revolucionário assim, ou só mais uma releitura ousada de ideias que já vimos antes?
Pequena história da tipografia experimental
A história da tipografia experimental é marcada por momentos de ruptura com as convenções tradicionais. No início do século XX, movimentos artísticos como o Futurismo e o Dadaísmo começaram a desafiar as normas tipográficas. O futurista (e fascista) Filippo Tommaso Marinetti utilizava tipografia para criar composições dinâmicas e não lineares que evocavam som e movimento. Já o Dadaísmo, com artistas como Tristan Tzara e Hugo Ball, utilizava textos fragmentados e disposições caóticas para provocar reações e questionar a lógica tradicional da comunicação.
O Construtivismo Russo, representado por El Lissitzky e Alexander Rodchenko, integrou a tipografia com formas geométricas e cores ousadas, criando peças que mesclavam arte e propaganda.
Durante o século XX, a Nova Tipografia Suíça, com figuras como Wolfgang Weingart, e o trabalho de designers como David Carson, na década de 1990, expandiram os limites da legibilidade e experimentaram com a disposição de texto e imagem. Carson, especialmente, rompeu com as normas ao priorizar a estética e a emoção sobre a clareza textual, influenciando profundamente o design gráfico contemporâneo.
Mas o Atype Movement inova ao levar a tipografia experimental a um novo patamar. Ele introduz a encriptação visual como elemento central, criando fontes que exigem interação ativa para serem decifradas. Essa abordagem transforma o ato de leitura em uma experiência imersiva e sensorial. Não é sobre transformar a tipografia em arte, é sobre uma nova forma de experienciar a tipografia, uma nova forma de “ler”, me parece. São fontes que podem ser até mesmo aplicadas a murais, esculturas e elementos arquitetônicos, com o objetivo de comunicação, mas sem poluição visual.
Quebrando regras, criando sentidos
O Atype Movement não busca apenas ser admirado; ele exige ser decifrado. Em uma era de consumo visual rápido, superficial e passivo, o movimento confronta o espectador com o inesperado, desafiando-o a quebrar a inércia da leitura automática.
Claro, essa abordagem não é para todos nem para todo contexto. O principal ponto contra, a meu ver, é a questão da acessibilidade e inclusão.
Mas é inegável que o Atype nos faz repensar o papel da tipografia: será que tudo precisa ser compreendido de imediato? Ou existe valor na pausa, na dúvida, na curiosidade? Mais do que uma evolução no design, é uma rebelião estética contra a previsibilidade.
É refrescante termos designers que estão se atrevendo a elaborar novas formas de pensar e sentir o design.
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☕Eu adoro curiosidades de linguística! No canal Alomorfe, você descobre porque aqui no meu país do Rio de Janeiro falamos “naiscer”. Tem também vídeos como “De onde vem a expressão ‘que nem’?” e “De onde vem o ‘cadê’?”. [@alomorfe no Tiktok]
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Outras tipografias que também encaixam nesse tema de experimentalismo e repensar a leitura são a Found Fount, do britânico Paul Ellimann, feita a partir de pequenezas do cotidiano; e os trabalhos do Stefan Sagmeister. (:
(e tá escrito Brew ali, que eu vi!)